Rastreabilidade 4.0: Blockchain e novas metas de 2026 transformam a reciclagem no Brasil

Estamos em janeiro de 2026 e a gestão de resíduos no Brasil atravessa sua fase mais tecnológica e regulatória. Com a entrada em vigor das novas metas do Decreto Federal de Logística Reversa, que estipula a recuperação de 22% das embalagens plásticas colocadas no mercado já para este ano, a pressão sobre as empresas nunca foi tão grande. A resposta do setor, no entanto, vem digitalizada: a integração massiva de blockchain e certificações digitais está eliminando o antigo fantasma da “dupla contagem” de notas fiscais e garantindo uma transparência inédita na cadeia de reciclagem.
O fim da era do papel e o auge dos Tokens de Reciclagem
Se até 2024 a rastreabilidade era um diferencial de marketing, hoje ela é uma licença para operar. O mercado brasileiro observa a consolidação de plataformas que tokenizam créditos de reciclagem. Startups nacionais, como a Minha Coleta e a Polen, ganharam tração no último semestre ao utilizar redes blockchain para transformar cada quilo de resíduo recuperado em um ativo digital único e imutável.
Essa tecnologia resolve um gargalo histórico: a fraude. Antigamente, uma mesma nota fiscal de venda de material reciclável poderia ser utilizada por duas ou mais empresas para comprovar o cumprimento de metas ambientais. Com o registro em livro-razão distribuído, o “Crédito de Logística Reversa” torna-se um NFT (Token Não Fungível) auditável em tempo real. Quem ganha é o meio ambiente e o compliance das corporações, que agora podem apresentar relatórios ESG à prova de falhas para investidores e reguladores.
O Passaporte Digital de Produtos (DPP) bate à porta
A urgência brasileira não é isolada. A indústria nacional corre para se adequar ao Passaporte Digital de Produtos (DPP) da União Europeia. Embora o foco inicial na Europa tenha sido baterias industriais e de veículos elétricos — cuja exigência de passaporte digital entrou em vigor no início deste ano —, a onda regulatória já impacta exportadores brasileiros de têxteis e aço verde.
- Transparência total: O DPP exige que dados sobre a origem da matéria-prima, percentual de conteúdo reciclado e instruções de descarte acompanhem o produto digitalmente.
- Impacto nas exportações: Commodities brasileiras e manufaturados que não comprovarem sua circularidade via certificações rastreáveis correm o risco de perder espaço no mercado europeu.
Um exemplo prático dessa movimentação global é o anúncio feito hoje (14) pela gigante japonesa Fujitsu, que iniciou testes de blockchain para rastrear dados de valor ambiental em “aço verde”, visando justamente a integridade das certificações de redução de carbono que circulam entre produtores e compradores internacionais.
Regulação nacional aperta o cerco
No cenário doméstico, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) publicou na primeira semana de 2026 novas portarias (como a GM/MMA nº 1.561/26) que endurecem os critérios de habilitação para as entidades gestoras. O recado é claro: a governança dos sistemas de logística reversa precisa ser auditável.
Não basta mais dizer que reciclou; é preciso provar o caminho do resíduo, da lixeira do consumidor até a reintrodução na indústria como nova matéria-prima. O ano de 2026 promete ser o divisor de águas onde a tecnologia blockchain deixa de ser uma promessa futurista para se tornar a espinha dorsal da economia circular brasileira.



